quinta-feira, 14 de outubro de 2021

PAZ DE AMOR

 

Calemos esta paz como um segredo
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.

Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.

Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.

E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.

Odylo Costa, filho 
de Boca da Noite - 1979
arte Willem Haenraest

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM

 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa
de Poesias 1942
arte Lienkie Lombard

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

BOI DE CARRO

 

Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

Num mar de pranto, onde o tormento cresce,
pelas mãos dos perversos foi jogado!
Flor do heroísmo que desaparece,
nos abismos das cinzas do passado!

Enquanto geme carregando a canga,
a humildade, com certeza, manga,
por vê-lo padecer com tanta calma!

Só eu lamento o seu sofrer medonho
porque também carrego, assim, tristonho,
um carro de ilusões chorando n’alma!

Jansen Filho

MADRUGADA EM MEU JARDIM



Um divino clarão vem do nascente
E sobre o meu jardim calmo resvala!
Na graça deste quadro reluzente, 
A aragem fria os meus rosais embala!

Tudo desperta misteriosamente!
E a luz cresce e se expande em doce escala,
Avivando o lençol resplandecente
Da brancura dos lírios cor de opala! 

E o sol, doirando as franjas do horizonte,
Celebra a missa do romper da aurora
Na doce Eucaristia do levante! 

Da passarada escuta-se o clarim !
E a madrugada estende-se sonora,
Na aleluia de luz do meu jardim ! 

Jansen Filho
arte Alexie Zaitsev

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

NASCIMENTO DA TARDE



 Há uma hora de sol alto, hora de 
 Meio-dia, em que a verdura dos prados se
Levanta como um grito de pés descalços.
Há uma hora desnuda, ligeira e solene como um
Render de guardas, em que o fio das baionetas
Vigilantes esplende à luz sem mistério.
Há uma hora, só uma hora, de alto e intemerato
Meio-dia, em que o sol é alto, e a vida é alta, e
Altas são as torres do futuro. Há um momento de 
Alto horizonte, em que as horas todas se perfilam
Como um exército obediente, aguardando a sua 
Ordem .Essa hora, entretanto, passa, como passam
As gaivotas sobre o mar. Essa hora, entretanto, passa
Como passam as crianças, de volta da praia ou do
Campo de folguedos. Essa hora, entretanto, passa 
Como passa o meio-dia, e o sol do meio-dia, e a luz,
Em revérbero, do meio dia. E passa o meio-dia, com sua 
Luz plena, e passa a plenitude do meio-dia, e passa a 
soberana estação sem mistério, e passa a palavra
Rude e sem medo, e passa o atrevimento dos olhos que 
Desafiam o sol em seu pináculo. E a terra, em seu giro 
se movimenta, no silêncio de seu voo sem asas. E a 
Terra passa, como passa o sol do meio-dia .E a hora  de
Esplendor intemerato passa, como passaram a terra e o sol
Do meio-dia. E as sombras crescem, para o rumo da tarde,
E as sombras, destronado o meio dia, crescem, lentas e 
Inexoráveis como a tarde que desce sobre as coisas. E as
Sombras se esticam sobre as casas, sobre as praias, sobre 
O mundo, e as sombras se esticam sobre os colégios e 
Orfanatos, sobre os hospitais, sobre os asilos, sobre o
Sofrimento do mundo. E o sol - Oh! sol do meio-dia! - se dobra
Na direção do retorno, e o crepúsculo com suas luzes brandas
Começa a tecer seus véus . E o mistério - adeus! sol do meio-
Dia, adeus! fala agora a sua língua e acende o seu 
Rito. E o mistério cobra o seu tempo, e povoa de seus vergéis
As pradarias sossegadas. E o mistério cobre de sua luz os
Tetos das casas, e fala a sua palavra sem pressa, e ensina 
A paciência ao impaciente, e a espera ao que tem fome e 
Sede de mundo. E ensina às mãos que antes se crispavam os 
                                                                                      [gestos
De despedida. E dita o silêncio ao que antes falava, e pousa 
Sobre os lábios férvidos a paz de sua marcha para a noite
Que ele traz, embalada, em seus braços.

 Hélio Pellegrino
de Minérios Domados - Poesia Reunida



terça-feira, 5 de outubro de 2021

PLENO OUTUBRO



Pouco a pouco e também muito a muito
me aconteceu a vida
e que insignificante é este assunto:
estas veias levaram
sangue meu que poucas vezes vi,
respirei o ar de tantas regiões
sem guardar para mim uma amostra de nenhum
e afinal de contas já o sabem todos:
ninguém leva nada de seu
e a vida foi um empréstimo de ossos.
O belo foi aprender a não se saciar
da tristeza nem da alegria,
esperar o talvez de uma última gota,
pedir mais ao mel e às trevas.


Talvez fui castigado:
talvez fui condenado a ser feliz.
Fique afirmado aqui que ninguém
passou perto de mim sem me compartir.
E que meti a colher até o cotovelo
numa adversidade que não era minha,
no padecimento dos outros.
Não se tratou de palma ou de partido
mas de pouca coisa: não poder
viver nem respirar com essa sombra,
com essa sombra de outros como torres,
como árvores amargas que o enterram,
como pancadas de pedra nos joelhos.


A tua própria ferida se cura com pranto,
a tua própria ferida se cura com canto,
mas na tua mesma porta se dessangra
a viúva, o índio, o pobre, o pescador,
e o filho do mineiro não conhece
o seu pai entre tantas queimaduras.
Muito bem, mas o meu ofício
foi a plenitude da alma:
um ai de gozo que te corta a respiração,
um suspiro de planta derrubada
ou o quantitativo da ação.


Eu gostava de crescer com a manhã,
embeber-me de sol, com pleno gozo
de sol, de sal, de luz marinha e onda,
e nesse avanço da espuma
fundou meu coração seu movimento:
crescer com o profundo paroxismo
e morrer se derramando na areia.


Pablo Neruda
de Antologia Poética
créditos para o blog do Castorp
https://blogdocastorp.blogspot.com

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

CHAMAR A SI TODO O CÉU COM UM SORRISO



que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings,  de “livro de poemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro