sábado, 4 de janeiro de 2020

CÃNTICO


O vento verga as árvores, o vento clamoroso da aurora...
Tu vens precedida pelos voos altos,
Pela marcha lenta das nuvens.
Tu vens do mar,comandando as frotas do descobrimento!
Minh'alma é trêmula da revoada dos Arcanjos.
Eu escancaro amplamente as janelas.
Tu vens montada no claro touro da aurora.
Os clarins de ouro dos teus cabelos cantam na luz!

Mario Quintana
De Mario Quintana Poesias
arte Erin Hanson

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NÚMEROS


Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demônios,

Para um só Sol, quatro Luas.

Para tua boca, todas as vidas.

Dar vida aos mortos
é obra para infinitos deuses.

Ressuscitar um vivo:
Um só amor cumpre o milagre.

Mia Couto
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Dorina Costras

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

ERRANTE


Estou por aí,
entre o breu e a lua cheia,
um pé no mar,
outro na areia,
metade raiz,
metade flutuação.
Estou por aí,
na contramão do sonho,
entre o susto e a poesia,
uma parte noite,
outra, meio-dia,
uma face é fé,a outra, indagação.
Um lado é decisão
o outro, impasse.
Estou por aí.
Se passar por mim, preciso que me abrace.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer
arte Christian Schloe

MULHERES OUTONAIS


Mulheres outonais entendem uma tarde levada ao extremo.
São capazes de conversar com cores que se movem e se
misturam,
com o perfume dos frutos que amaduram,
com o silêncio das aves recolhidas.
Mulheres outonais são comprometidas com o sol poente,
a quem fazem confidências .
São promessa e reticência,
volúpia e mansidão.
O outono abraça essa mulher
que caminha serena sobre folhas secas,
páginas viradas de um abril qualquer.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer
arte Steve Henderson

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A ROSA DO MUNDO



Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

William Butler Yeats
 em "W.B.Yeats uma antologia".
 Selecção e tradução de José Agostinho Baptista.
arte Marchella Piery

terça-feira, 12 de novembro de 2019

SONETO


"Carta Íntima"

Que este soneto, assim, feito ao correr da pena
Possa, filha, dizer-te o que a voz te não diz,
Porque este afeto excede a linguagem terrena,
E não tenho expressões se te vejo infeliz.

Se a vida te corre, acaso, alegre e amena,
Ouve, em vez da minha, as mil vozes hostis
Em que buscam, os teus, nos infligir a pena
De curvarmos a alguém, humildes a cerviz.

Tu, que foste, que ainda és e que serás, por certo,
Aquela que, jamais, do interesse ouve a voz
Mais longe estás de mim quando de ti estou perto!

Deves, porém, saber que, quando fico a sós,
A própria multidão, para mim, é um deserto,
Porque o mundo não és, nem eu sou: somos nós!

Emílio de Menezes
de Esparsos e inéditos/Poesia lírica
arte Pino Giuseppe Dangelico


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

SOL DE OUTONO



 Declínio augusto de uma mocidade,
 Tarde melhor que esplêndida manhã,
 Fruto supremo na maturidade
 E alma da carne sazonada e sã;

 Argirócomo tronco, inda te invade
 Juvenilmente, sápida e louçã,
 A seiva forte em toda intensidade
 Do sangue de imortal deusa pagã!

 Nada te abate o orgulho da beleza,
 Pois tens, dentro de ti, o áureo fulgor
 Do Belo, eterno como a Natureza!

 A arte emprestou- te o mágico vigor
 Da forma que persiste, altiva e ilesa,
 A rir da Morte e a perpetuar o Amor.

Emílio de Menezes
de Últimas Rimas