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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Canção do meu olhar




e meu olhar
te disser além, muito além
do que queres saber,
desvia.

Se meu olhar
me trair
e deixar transparecer
toda a ternura,
que tenho por ti,
disfarça.

Se meu olhar
tentar ainda assim
te conquistar e seduzir
e o brilho ardente
te incomodar,
dissimula.

Se meu olhar,
em teu olhar, encontrar
a mesma sintonia,
por favor, sorria.

Dúnia de Freitas
In Danada

arte Dorina Costras

domingo, 3 de setembro de 2017

Ecos de Potestate




Sou feita de barro e sonhos.
Sinto em mim o turbilhonar
de todas as forças do universo.
Vim de um lugar obscuro: o útero.
Percorrerei longas veredas
até meu retorno ao barro.
Dessa lama humana
jorram canções, amores ávidos,
impulsos rútilos, insanos propósitos.
Escamo-me para extirpar o azinhavre.
Chego às vísceras, empalideço o todo
até surgir o branco da essência.
Acomodo medos e angústias
no rubi incrustado: cerne
do meu corpo que devora enigmas.
Adereço da noite, o silêncio,
exacerba-se com o passar das horas:
igual ao dos pátios na madrugada.
Sussuros noturnos avolumam-se
sem peias no limbo da solidão:
suplicam clemência às potestades.
Pressinto a presença de Deus:
incitamento que faz irreversível
minha atitude diante da vida.
Frente a frente de mim
transcendência me arrebata:
jeito meu de romper o exílio.
Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na madrugada azul
arte Vera Pavlova

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Cores : Inquilinas do mundo



A cada nova aurora,
réstias de luz
brincam em nossas vidraças,
e aguardam a febre do meio-dia.

Na dispersão da luz
as cores se avolumam:
terra, laranja,amarelo e ferrugem.

Solarizada, a natureza
realça sua vivez até afogar-se num pélago
de tintas outonais.

Entre contrastes, a lúcida pupila
acomodou sua alma
na visão edênica,
criando para si
um mundo ainda inconcluso,
advento da tônica final.

O que esta visão revela?
Um silêncio?
Uma ventania?
Uma canção?

Colhe-se canções quando em pranto
jogamos as sementes?

Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na madrugada azul