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domingo, 8 de abril de 2018



Conheço um lugar onde floresce o tomilho silvestre,
onde primaveras e violetas pendentes crescem,
coberto por um dossel de madressilvas exuberantes,
com doces rosas almiscaradas e roseiras-bravas;
lá dorme Titânia uma parte da noite,
embalada, nessas flores, com danças e festas;
e lá a serpente troca sua pele esmaltada,
qual larga folha que possa envolver uma fada;
e com o suco disto vou esfregar-lhes os olhos
e deixá-la repleta de odiosas fantasias.
Pega um pouco dele e procura neste bosque:
uma doce dama ateniense está apaixonada
por um desdenhoso jovem; unge os olhos dele;
mas faz isso de modo que a dama seja
a próxima coisa que ele veja.Reconhecerás o homem
pelos trajes atenienses que veste.
Faze-o com algum cuidado, para que ele se mostre
mais apaixonado por ela do que ela por seu amor.
E procura encontrar-me quando o primeiro galo cantar.

William Shakespeare
In Sonho de Uma Noite de Verão
tela: Titania Sleeps; A Midsummer Night's Dream
by Frank Cadogan Cowper

domingo, 18 de março de 2018

Soneto LXX



Se te censuram, não é teu defeito,
Porque a injúria os mais belos pretende;
Da graça o ornamento é vão, suspeito,
Corvo a sujar o céu que mais esplende.
Enquanto fores bom, a injúria prova
Que tens valor, que o tempo te venera,
Pois o Verme na flor gozo renova,
E em ti irrompe a mais pura primavera.
Da infância os maus tempos pular soubeste,
Vencendo o assalto ou do assalto distante;
Mas não penses achar vantagem neste
Fado, que a inveja alarga, é incessante.
Se a ti nada demanda de suspeita,
És reino a que o coração se sujeita.
 William Shakespeare

domingo, 1 de outubro de 2017

Soneto 54



Oh, como a beleza parece mais bela
com o doce ornamento que a verdade produz!
A rosa é bela, mas mais bela a julgamos 
Pelo doce aroma que nela seduz.
As rosas silvestres têm a cor tão profunda
Quanto a tintura das rosas perfumadas,
Têm os mesmos espinhos e brincam tão vivamente
Quando o sopro do verão expõe os botões velados;
Mas exibem-se apenas para si mesmas,
Vivem esquecidas e murcham obscuras;
Morrem sozinhas. As doces rosas, não;
De suas doces mortes surgem as mais doces essências.
E assim também a ti, a bela e adorável mocidade,
Fenecido o frescor, revela em versos tua verdade.

William Shakespeare(1564-1616)
de A Linguagem das Rosas  




À ousada violeta,eu disse:"Onde roubaste,
Suave ladra, essa cor que a face te purpura,
Senão do meu amor nas veias? Onde achaste,
Senão no hálito dele, essa fragrância pura?"
A manjerona e o lírio acusei de roubado
Terem-te,um,o cabelo, e o outro, a mão venusta.
Das belas rosas que entre espinhos após o fado,
Uma cora de pejo, alveja outra, que assusta.
Branco-vermelha, eis, inda, outra rosa que tinha
De ti o hálito e a cor, e andava isso alardeando.
Veio um pulgão, porém, e o orgulho de rainha
Vingativo lhe esfez, a vida lhe tirando.
Mais flores observei, mas todas, em verdade,
Roubaram a tua graça e a tua suavidade.

William Shakespeare
In Sonetos 
Tradução de Jerônimo de Aquino