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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Por toda a parte



Interrogaste a vida: interrogaste o arcano,
Misterioso sentir do coração humano;
A mesta palidez serena do luar;
O murmúrio plangente e soturno do mar;
O réptil, que rasteja; o pássaro, que voa;
A fera, cujo berro as solidões atroa;
A desenfreada fúria insana do tufão;
A planta a se estorcer numa atroz convulsão.
Interrogaste, enfim, tudo o que existe, tudo:
O que chora, o que vibra, o que é imoto, o que é mudo.
Do astro eterno baixaste à transitória flor.
Que encontraste, afinal?
– A dor! a dor! a dor!

 Júlia Cortines
arte Fuller Graves

Dor Eterna




O tempo – dizem – apaga
O prazer e o sofrimento
Sobre eles rolando a vaga
Sombria do esquecimento.

E transforma encantadores
Sítios, que tu, Abril, vestes
De uma gaze de esplendores,
Em sítios feios e agrestes.

E faz germinar nas águas,
Que bebe a gandra bravia,
O lírio, como das mágoas
Brota a flor da alegria.

E, no entretanto, contemplo,
Extática e dolorosa,
Entre os escombros de um templo
Desmoronado, caída

A ara ebúrnea, de que há tanto
Despenhou-se a idolatrada
Imagem, que vejo, em pranto,
De lodo vil salpicada...

Por isso, pungida à aguda
Pena, que o olvido não calma,
Diz à revolta, sanhuda
Onda do tempo a minha alma:

“– Rola túmida ou desfeita.
Que importa? – Como os granitos,
Conservo, pedaços feita,
Os caracteres inscritos.”

Júlia Cortines 

O Tempo




Passas, leve e sutil, sem trégua e sem cansaço.
 Passas, e de teus pés vem rolar sob a planta
Tudo o que ri e chora e se lastima e canta.
 Uma esteira de pó fica após o teu passo...

 Quanta angústia desfeita em lágrimas, 
e quanta Ilusão, que embalou um’hora o teu regaço,
 Não pensaram, ness’hora inolvidada e santa,
 Seguir contigo a estrada infinita do espaço!

 E ao término fatal levaste-l’as, no entanto. 
O monumento eril rui à tua passagem,
 E transmuda-se em sombra a mais brilhante imagem.

 Tarde ou cedo destróis tudo o que existe: o pranto
 Secas, sustas o riso, e emudeces o grito
 No lento caminhar através do infinito...

Julia Cortines
arte Fuller Graves

Tarde de Inverno



( a Carlota Cortines) 

 Sob o curvo cristal da imensidade
 De um céu de transparência etérea e fria,
 Em que do posto sol a claridade,
 Azul e melancólica, radia, 

Vemos o bosque, o rio, a amenidade
 Das sombras, a ondulada pradaria,
 Como um painel de estranha suavidade 
E encantadora e rústica poesia.

Olha como o formoso fruto loiro
 Salpica de pequenos pontos de oiro
 Aquela verdejante laranjeira!

 E além, alem, do céu no alaranjado
 Fundo se esbate e avulta o recortado 
E sombrio perfil da cordilheira...

Julia Cortines
arte Van Gogh