Mostrando postagens com marcador Flora Figueiredo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Flora Figueiredo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de outubro de 2022

REGÊNCIA

 


Rabisco aqui
de próprio punho
o rascunho
de tuas horas que são minhas.
Entreguei à lua
a regência de minhas horas que são tuas.
Pediu-se ao vento
para enganar o tempo com seus assobios
e aos trinados vadios das aves errantes,
que convocassem os passantes 
para escutar a nova sinfonia.
Sobre a terra quente e latejante,
despejei bemóis e sustenidos
para germinar no solo a melodia
que rege a vida com a fúria dos sentidos.

Flora Figueiredo
de Limão Rosa
Arte Irina Kotova

sexta-feira, 20 de março de 2020

TOM SOBRE TOM


Por vezes, a tarde outonal
chega a doer de tanta boniteza.
É quando ela pinça histórias arquivadas
que cortam o espaço vestida de andorinha.
Voa lembrança minha, asas abertas sobre fundo azul.
Permita-se doer de dor bonita
pois o Outono passa,
o azul se desmerece,
a luz descansa.
Voa, que a nostalgia também é parte dessa dança.

Flora Figueiredo
de Páginas Viradas de um abril qualquer

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

ERRANTE


Estou por aí,
entre o breu e a lua cheia,
um pé no mar,
outro na areia,
metade raiz,
metade flutuação.
Estou por aí,
na contramão do sonho,
entre o susto e a poesia,
uma parte noite,
outra, meio-dia,
uma face é fé,a outra, indagação.
Um lado é decisão
o outro, impasse.
Estou por aí.
Se passar por mim, preciso que me abrace.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer
arte Christian Schloe

MULHERES OUTONAIS


Mulheres outonais entendem uma tarde levada ao extremo.
São capazes de conversar com cores que se movem e se
misturam,
com o perfume dos frutos que amaduram,
com o silêncio das aves recolhidas.
Mulheres outonais são comprometidas com o sol poente,
a quem fazem confidências .
São promessa e reticência,
volúpia e mansidão.
O outono abraça essa mulher
que caminha serena sobre folhas secas,
páginas viradas de um abril qualquer.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer
arte Steve Henderson

domingo, 20 de outubro de 2019

INCONTROLÁVEL



Tem dia de manga-rosa
e dia de limão azedo;
tem tempo de gardênia
e tempo de galho seco;
tem hora de salmo
e hora de maledicência;
tem palavra de falar
tem palavra de ficar quieta.
É tudo poesia na palma da mão.

Flora Figueiredo
Limão Rosa
arte Dorina Costras

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Método Infalível




Aproxime-se mais.
Tente sentir do que um abraço é capaz.
Quando bem apertado,
ele ampara tristezas,
sustenta lágrimas,
combate incertezas,
põe a nostalgia de lado.
É até capaz de amenizar o medo.
Se for cheio de ternura,
ele guarda segredos
e jura cumplicidade.
Um abraço amigo de verdade
divide alegrias
e se apraz em comemorações.
Abraços são pequenas orações
de fé, de força e energia.
Olhe para o lado:
há alguém que quer ser abraçado
e não tem coragem de dizer.
Enlace-o.
O pior que pode acontecer
É ganhar de volta um sorriso de carinho
ou, quem sabe, uma palavra sincera.
Voce vai descobrir que ninguém está sozinho
e que a vida pode ser um eterno céu de Primavera.

Flora Figueiredo


Tratado Manso de Loucura



Como amo a paz de estar comigo!
Essa fusão de alma-umbigo,
esse roteiro quente do meu sangue.
Eu que conheço cada palmo dos meus passos,
que me retenho e me disponho.
Faço dos versos meu avesso,
dos adversos, meu passado,
das alegrias, meu recomeço.
Deito liquefeita e, de repente,
amanheço solidificada.
Sou água, sou pedra,
às vezes nuvem,
às vezes nada.
Por ser inconstante e difusa,
enrolo e desenrolo essa vida
num movimento mágico e confuso,
admito ser ou não ser
e ser assim.
Como é bom sentir-me tão querida,
tão bem-amada e tão dividida,
eu resolvida inteiramente por mim!

Flora Figueiredo
In Florescência

sábado, 30 de junho de 2018

Noite de Frio



Julho:
a lua tira os véus
e se dilata.
Roça pelos de prata
sobre arranha-céus.

Flora Figueiredo
In Estações 

sábado, 23 de junho de 2018

Azaleia



Às vezes diamante,
um pouco rubi,
talvez ametista,
uma das joias predileta dos paulistas.
Jaça nenhuma, a cor é tanta
que, quando no jardim explode, a planta
até parece tesouro na bateia.
Aprumem-se, caros poetas e floristas,
pois que é chegado o tempo de Azaleia!

Flora Figueiredo
de Estações

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Inverno



O inverno açoita lá fora.
É hora de acender o lume
e te dar meu colo, como de costume.
Deita teu sonho e enche tua taça
porque a noite cansa, a estrela passa
e a lua se apaga, morta de ciúme.

Flora Figueiredo
In O trem que traz a noite
arte Gustav Klimt

O Inverno



A quem me julga álgido, indiferente,
ofereço como atenuante a sugestão
do beijo no beijo, o corpo no corpo
e a mão aquecida em outra mão.
Sou o quadrante menos quente,
mas em contrapartida
faço o espaço necessariamente mais estreito
entre o peito do amante e a pretendida.

Flora Figueiredo
In Estações
arte Ron Hicks

Cinzentos




Tem uma tristeza escondida lá para trás.
Tantas luas faz, que já nem sei
qual a avenida em que foi concebida,
o quarteirão em que criou a raiz.
Aí está ela no seu mesmo terno,
chegando sempre a cada novo Inverno,
severa e cinza na risca de giz.

Flora Figueiredo
In Estações

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Veranico


Resto de frio.
Desliza o arrepio
pela espinha dorsal
e se acaba.
Contraria o texto original.

Vem viração fora de hora,
que de repente caustica,
inquieta,abafa,falsifica
e a cada ano custa mais a ir embora.

Com esse prevarico de Verão,
fica o povo todo sem saber
se as estações é que cometem adultério
ou se sua terra é que começa a envelhecer.
Será isso Veranico ou Climatério?

Flora Figueiredo
Estações

domingo, 29 de abril de 2018

Maio


Maio não conta aos outros meses
o segredo de seu azul.
Sempre que vem,
traz consigo tetos lisos e claros,
de cromatismo raro:
índigo e safira,
cobalto e anil.
Esse azul que suspira e sonha alto
adorna maio com tez de porcelana,
onde a luz deliciada põe seu beijo.
Ao findar do dia, ele retira seu reinado
pintando de genciana a tarde de azulejo.

Flora Figueiredo
de  Estações

segunda-feira, 19 de março de 2018

Sombra




O sol pendurado, lá de cima,
estica uma linha preta
que despenca lisa e reta
sobre a rima.
Sombra do poste sobre a borboleta.

Flora Figueiredo
In Estações

Brisa



No primeiro hálito de Outono,
um sopro de harmonia.
Adolescência sutil,
a brisa passa,
encontra uma poesia,
se entrelaça.
Dorme inocências no colo de abril.

Flora Figueiredo
In Estações

Tonalidades



Vermelho,
rosáceo,
violáceo,
laranja.
Anoitecer outoniço:
brincando de pintor,
o anjo despeja feitiço
da caixa de lápis de cor.

Flora Figueiredo
arte Victor Nizovtsev

terça-feira, 6 de março de 2018

Amarelinha





Procuro o céu insistentemente
como toda a gente,
jogando com a vida
como uma pedrinha
na amarelinha.
De pulo em pulo,
um só pé no chão,
sinto a realidade.
A outra metade é sonho, ilusão.
Assim me equilibro com dificuldade.
Se a pedra cai fora,
então recomeço.
Se a pedra cai dentro,
me ajeito e me apresso.
A meta é no alto
e de salto em salto
disputo comigo.
Às vezes me alegro,
às vezes me exalto.
Será que eu consigo?

Flora Figueiredo
In Florescência

segunda-feira, 5 de março de 2018

Chuvarada



Inquieta-se o calor
que, de tão quente,
já não suporta o seu próprio cobertor.
Espera a tempestade
que vem no fim da tarde,
quando o peito suado fervilha.
Ela lambe-lhe o rosto,
beija-lhe a virilha
e, excitada, põe a praça louca e alagada.
Goza na boca morna do sol-posto.

Flora Figueiredo
In Estações

Jasmineiro



Diverte-se colorindo espaços
e, à noite, o Jasmim se enamora.
Banha-se de estrelas,
perfuma-se de extratos de cetim.
Adula amores com licores de melaço,
escorre açúcar pelas dobras do mormaço.
Ele é o exemplo de luxúria do jardim.

Flora Figueiredo
In Estações