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segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

LIÇÕES

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

Mia Couto 
arte Nydia Lozano
de  Idade cidades divindades


terça-feira, 25 de outubro de 2022

SAZONAIS ETERNIDADES

 


Abres-me, janela,
e antigas memórias
me salpicam o rosto,
chuvas ainda por desabar.

Escancaradas portadas,
devolvem-me o corpo,
esse mesmo corpo
que, para febre e desejo,
em outro corpo acendi.

Abres-me, saudade
e o tempo se descalça
pra atravessar
incandescentes brasas.

E quando,
de novo, me encerras
volto a dormir
como dormem os rios
em véspera de serem água.

A saudade
é o que ficou
do que nunca fomos.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
Arte Trish Biddle


A DEMORA


O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes,
Porque não é no tempo que eu  te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias. 

Quando chegas 
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede.

Envelhecia a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz,
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto
de Poemas escolhidos
Arte Dorina Costras



 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

LIÇÕES




Não aprendi a colher a flor

sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?


 Mia Couto 
em Idades cidades divindades
Créditos Revista Prosa e Verso
arte Matteo Arfanotti

terça-feira, 26 de outubro de 2021

SOLIDÃO


 Aproximo-me da  noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso.

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou.

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Vincent Van Gogh

ÂNSIA




Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos 
tivéssemos trocado
para morrer vivendo.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Vincent Van Gogh

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NÚMEROS


Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demônios,

Para um só Sol, quatro Luas.

Para tua boca, todas as vidas.

Dar vida aos mortos
é obra para infinitos deuses.

Ressuscitar um vivo:
Um só amor cumpre o milagre.

Mia Couto
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Dorina Costras