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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

BOI DE CARRO

 

Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

Num mar de pranto, onde o tormento cresce,
pelas mãos dos perversos foi jogado!
Flor do heroísmo que desaparece,
nos abismos das cinzas do passado!

Enquanto geme carregando a canga,
a humildade, com certeza, manga,
por vê-lo padecer com tanta calma!

Só eu lamento o seu sofrer medonho
porque também carrego, assim, tristonho,
um carro de ilusões chorando n’alma!

Jansen Filho

domingo, 24 de setembro de 2017

Lua cheia




Quando o céu todo se enfeita.
Para uma paz satisfeita
E o mundo inteiro se deita
Nos braços da escuridão,
Aparece a lua cheia,
A fulgurante candeia
Que pelo espaço vagueia,
Clareando a imensidão!
Sutil e cariciosa,
Dentro da nuvem garbosa,
Ela se eleva ditosa,
Num soberbo alumbramento!
É o espelho da beleza,
Refletindo a natureza,
No seu trono de princesa
Do salão do firmamento!
O céu – lindos alabastros!
Vive marcado de rastros
Da enamorada dos astros
E poetisa do azul!
Quando ela passa sombria,
Distribuindo alegria
E recitando poesia
Para o Cruzeiro do Sul!
E na sua claridade
Que há tanta serenidade,
Existe a sublimidade
Da transparência de um véu…
A lua que algo retrata,
Jogando luz sobre a mata,
Parece um olho de prata
No rosto imenso do céu!
Jansen Filho

Madrugada em meu jardim



Um divino clarão vem do nascente 
E sobre o meu jardim calmo resvala! 
Na graça deste quadro reluzente, 
A aragem fria os meus rosais embala! 

Tudo desperta misteriosamente! 
E a luz cresce e se expande em doce escala, 
Avivando o lençol resplandescente 
Da brancura dos lírios cor de opala! 

E o sol, doirando as franjas do horizonte, 
Celebra a missa do romper da aurora 
Na doce Eucaristia do levante! 

Da passarada escuta-se o clarim ! 
E a madrugada estende-se sonora, 
Na aleluia de luz do meu jardim ! 

Jansen Filho
arte Lucia Sarto





É melhor silenciar...Esquecer o passado,
Esperar o porvir e viver o presente,
Foi sempre este o dever de um coração magoado
Que não sabe o que quer e não diz o que sente!

Pela seara sem fim das carícias ditosas,
Nosso idílio foi bom como as águas que correm...
Cresceu! Viçou! Floriu e viveu entre rosas
Para morrer depois como os pássaros morrem.

Sob a abóbada azul do sonho que eu sonhava,
Foste a luz da manhã dos meus límpidos dias!...
Afastaste de mim o terror que eu guardava
Da indolência brutal das longas travessias!...

Palmilhaste comigo a estrada florescente,
Salpicada de arminho, aljofrada de beijos...
E comigo plantaste a radiosa semente
Que faz brotar o amor e florescer desejos!...

Vivemos muito tempo à sombra apetecida
Das flores do vergel do nosso amor profundo!
Eu - pensando no mundo, esquecido da vida!
Tu - pensando na vida, esquecida do mundo!...

Hoje o triste tufão das negras derrocadas
Nos tentou separar e o fez perversamente...
-Malditas sejam, pois, as ilusões passadas
Que me fazem lembrar de um ser que vive ausente!...

Na enseada desta vida eu de tudo me escuso,
Conduzindo no peito um coração sem dono...
Um nefando batel pobre, escabroso e rudo,
Que o tempo espátifou nas rochas do abandono!

É melhor olvidar!... A solidão discreta
Incutiu no meu todo a paciência de Job!
Quero agora cumprir o meu fado de poeta:
Viver só! Sempre só! Eternamente só!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas
arte Abbott Fuller

Ouvindo o mar





A coma dos coqueiros se balança!
O mar se estorce num suspiro infindo,
A onda cresce, soluça, para e cansa,
Na apoteose desse drama lindo!

A brisa passa preguiçosa e mansa,´
Pelo palco da praia se exibindo,
Exalando perfumes de bonança
E queixumes de amores sacudindo...

O marulhar das águas silencia.
Passa o rumor da brisa fugidia,
Deixando em tudo a dor de recordar...

Mas, quando desce a paz das horas francas,
A gaivota sacode as asas brancas
Na moldura vastíssima do mar!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas
arte Washington Maguetas

segunda-feira, 4 de setembro de 2017



É melhor silenciar...Esquecer o passado,
Esperar o porvir e viver o presente,
Foi sempre este o dever de um coração magoado
Que não sabe o que quer e não diz o que sente!

Pela seara sem fim das carícias ditosas,
Nosso idílio foi bom como as águas que correm...
Cresceu! Viçou! Floriu e viveu entre rosas
Para morrer depois como os pássaros morrem.

Sob a abóbada azul do sonho que eu sonhava,
Foste a luz da manhã dos meus límpidos dias!...
Afastaste de mim o terror que eu guardava
Da indolência brutal das longas travessias!...

Palmilhaste comigo a estrada florescente,
Salpicada de arminho, aljofrada de beijos...
E comigo plantaste a radiosa semente
Que faz brotar o amor e florescer desejos!...

Vivemos muito tempo à sombra apetecida
Das flores do vergel do nosso amor profundo!
Eu - pensando no mundo, esquecido da vida!
Tu - pensando na vida, esquecida do mundo!...

Hoje o triste tufão das negras derrocadas
Nos tentou separar e o fez perversamente...
-Malditas sejam, pois, as ilusões passadas
Que me fazem lembrar de um ser que vive ausente!...

Na enseada desta vida eu de tudo me escuso,
Conduzindo no peito um coração sem dono...
Um nefando batel pobre, escabroso e rudo,
Que o tempo espatifou nas rochas do abandono!

É melhor olvidar!... A solidão discreta
Incutiu no meu todo a paciência de Job!
Quero agora cumprir o meu fado de poeta:
Viver só! Sempre só! Eternamente só!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas

arte  Richard S. Johnson