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sábado, 28 de outubro de 2017




Creio nos anjos que andam pelo mundo ,
creio na deusa com olhos de diamante .
Creio em amores lunares com piano de fundo ,
Creio nas lendas , nas fadas , nos atlantes .
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes .
Creio que tudo é eterno num segundo .
Creio nun céu futuro que houve dantes . 
Creio nos deuses de um astral mais puro ,
creio na flor humilde que se encosta ao muro ,
creio na carne que enfeitiça o além .
Creio no incrível , nas coisas assombrosas ,
Na ocupação do mundo pelas rosas ,
Creio que o amor tem asas de ouro .
 Amém.

Natália  Correia
arte Liliya Popova

sábado, 30 de setembro de 2017

De Amor nada Mais Resta que um Outubro




De amor nada mais resta que um Outubro 
e quanto mais amada mais desisto: 
quanto mais tu me despes mais me cubro 
e quanto mais me escondo mais me avisto. 

E sei que mais te enleio e te deslumbro 
porque se mais me ofusco mais existo. 
Por dentro me ilumino, sol oculto, 
por fora te ajoelho, corpo místico. 

Não me acordes. Estou morta na quermesse 
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie 
nem teus zelos amantes a demovem. 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço 
mais de terra e de fogo é o abraço 
com que na carne queres reter-me jovem. 

Natália Correia, in “Poesia Completa” 
arte  Ichiro Tsuruta   

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Ricochete




Que margens têm os rios?
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?

Natália Corrêa
arte Gaetano Bellei