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sábado, 4 de janeiro de 2020

CÃNTICO


O vento verga as árvores, o vento clamoroso da aurora...
Tu vens precedida pelos voos altos,
Pela marcha lenta das nuvens.
Tu vens do mar,comandando as frotas do descobrimento!
Minh'alma é trêmula da revoada dos Arcanjos.
Eu escancaro amplamente as janelas.
Tu vens montada no claro touro da aurora.
Os clarins de ouro dos teus cabelos cantam na luz!

Mario Quintana
De Mario Quintana Poesias
arte Erin Hanson

domingo, 18 de março de 2018

Canção de Outono



O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!


Mario Quintana


A gente sempre deve sair à rua
como quem foge de casa
Como se estivessem abertos diante de nós
todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos,
as obrigações, estejam ali...

Chegamos de muito longe,
de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana,
in "A cor do invisível".
arte Daniel F.Gerhartz

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Esperança




Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RANÇA...

Mario Quintana
In Nova Antologia Poética
arte Amanda Cass

domingo, 8 de outubro de 2017

O menino louco






Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriram insones como flores no escuro
Até que, longe no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...

Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula... Às vezes virginalmente nua ...
E era branca como as nozes que os esquilos
descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
(Em meus lábios queimava-se ,
ignorada, a palavra mágica!) 


Mario Quintana 
arte Jim Carroll


sábado, 30 de setembro de 2017

O Motivo da Rosa




A rosa, bela infanta das sete saias
e cuja estirpe não lhe rouba, entanto,
o ar de menina, o recatado encanto
da mais humilde de suas aias,
a rosa, essa presença feminina,
que é toda feita de perfume e alma,
que tanto excita como tanto acalma.
a rosa... é como estar junto da gente
um corpo cuja posse se demora
- brutal que o tenhas nesta mesma hora,
em sua virgindade inexperiente 
Rosa, ó fiel promessa de ventura
em flor...rosa paciente, ardente,pura!

Mario Quintana
In Melhores Poemas

Primavera





A primavera é a estação dos risos  etc.etc . Mal  treme
a brisa e mal palpita o lago.Mas de que brisa me hablas,
Casemiro? É vento, é chuva - é isto!
Ah, pelo que vocês dizem e pelo que se vê, a primavera
é apenas uma licença poética...



Mario Quintana
In Porta Giratória

Canção do Fundo do Tempo




Longe andava o meu olhar.
Longe andava...
Creio que jamais te vi...
Linda corça enrodilhada
À espera do sacrifício,
Parece que te vejo agora
Só agora!
Levemente desenhada
Nos móveis biombos do tempo
Feitos de água e de gaze...
Ah! se eu pudesse jogar-me
Às águas que já passaram,
Decerto que morreria
Ou ficaria mais louco
Do que os anjos rebelados:
Ninguém quebra a lei do tempo,
Basta os cabelos de mortos
Que se enroscam em meus dedos,
Basta as vozes tão amadas
Que me chamam de tão longe...
Ah, decerto que eu morreria,
Se é que já não morri!
Longe andava o meu olhar.
Longe andava...
Por trás dos muros do tempo,
As pessoas que eu amava
Amaram-se entre si.

Mario Quintana
In Apontamentos de História Sobrenatural 
tela Felix Mas

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Canção da Primavera




 Primavera cruza o rio,
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.


Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros floridos!

Mário Quintana