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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Somos Inocentes


A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão
do dia.

Ceder quando devíamos negar, dizer
não em lugar de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar
a vida.

Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia.

Lya Luft
In Para não dizer adeus



sábado, 7 de outubro de 2017

Deus, eu faço parte do teu gado




Deuseu faço parte do teu gado:
esse que confinas em sonho e paixão
e às vezes em terrível liberdade.
Sou, como todos, marcada neste flanco
pelo susto da beleza, pelo terror da perda...
e pela funda chaga dessa arte
em que pretendo segurar o mundo.
No fundo,Deus,
eu faço parte da manada
que corre para o impossível,
vasto povo desencontrado
 que ignoras ou contornas
com teu olhar 
compassivo.
Deus,
eu faço parte do teu gado
estranhamente humano,
marcado para correr 
amar 
morrer
querendo todo dia
 colo, explicação, 
perdão
e permanência.

(A gente não pode esquecer
a alegria.)

Lya Luft 
In A Riqueza do Mundo


Deuses e homens




Os deuses estavam de bom humor
abriram as mãos e deixaram cair no mundo
os oceanos e as sereias,
os campos onde corre o vento,
as árvores com mil vozes,
as manadas, as revoadas
- e, para atrapalhar, as pessoas.

O coração bate com força
querendo bombear sangue
para as almas anêmicas.
Mas onde está todo mundo?
Correndo atrás da bolsa de grife,
do ipod,do ipad,
ou de coisa nenhuma.
Tudo menos parar, pensar,contemplar.

(Enquanto isso a Morte revira
seus grandes olhos de gato,
termina de palitar os dentes

e prepara o bote.)


Lya Luft 
arte john william waterhouse


O que não é banal



O lixo na praia,
a mulher parindo na calçada,
as multidões enlouquecidas,
as ilhas dos amantes,
Por um instante
a gente desliga os aparelhos
e vive.

N aluz que se filtra na mata,
poeirinhas,polens,saliva de fada
que ri à toa,
ou caspa de duende armando suas artes.
A ventania chega atropelando tudo:
recolhem-se crianças e coisas 
e se olha a tempestade atrás da janela.

Logo ali o grande mundo mói a vida
com suas engrenagens cruéis:
mas naquele momento, naquela redoma
de vidro simples na chuva cotidiana,
ali é o castelo da Bela Adormecida
ou a casa dos sete anões

( Nada é banal.
A gente é que esquece.)

Lya Luft
arte Gustave Dore



terça-feira, 26 de setembro de 2017

Viagem





Não é preciso morar na esquina
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.

Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.

É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.

O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem de ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.

Lya Luft
In Para não dizer adeus
arte Dima Dimitriev



Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim e passa
sobre meu coração a asa tensa,
como se fosse o meu melhor amigo.

Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta entre ti e mim
e está comigo.

Lya Luft
In Secreta Mirada



Deixa-me amar-te com ternura, tanto
que nossas solidões se unam,
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas,
pois disso se fará a nossa voz.

Ajuda-me a amar-te sem receio:
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft
In Secreta Mirada
arte Willem Haenraets




A vida tem crueldades, mas também delicadezas que se estendem além da paixão - que, sendo relâmpago e trovão, nem sempre traz a desejada permanência.Em qualquer relacionamento: amizade,família,trabalho,amor,somos realidades em choques.O aprendizado não é fácil. Aqui e ali, tiramos notas baixas, alguma vez somos reprovados num teste importante.Aceitar essa reprovação pode levar todo o tempo de uma longa vida.Queremos o milagre, mais do que o milagre, queremos sempre a salvação.Mesmo quando o chão começa a afundar, e o tapete deslizou sob nossos pés aflitos, teimamos em pensar que ainda há remédio:um pobre band-aid serviu.Ou um passe de mágica que nos tornasse menos expostos, menos humanos.


Lya Luft
In Secreta Mirada
arte Abbott Fuller Graves

Canção em outras palavras



O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem,bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revoos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem demais.

Lya Luft
In Secreta Mirada e Outros Poemas
arte Rudolf L.