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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

PARA UM AMOR QUE NÃO VEIO



Tenho sede de ti
meu amor
mas desconheço o som de teus passos
desconheço
a textura (provavelmente morna)
de teus cabelos - desconheço.

Tenho tanta sede de ti
amor - areia soprada pelo vento
teia esgarçada, sonho desperto
bruscamente - tanta sede
e tão abissal
e tão atávica
e tão desencontrada
nestes vinte e seis anos de procuras 
vãs.

Ah
quero fechar meus olhos
quero despertar logo e
bruscamente
deste denso sono em ti:
amado, amada
- desconhecidos 
alados.

Caio Fernando Abreu
 Poesias nunca publicadas 
arte Dorina Costras

STONE SONG



Eu gosto de olhar as pedras
que nunca saem dali.
Não desejam nem almejam 
ser jamais o que não são.
O ser das pedras que vejo 
é só ser, completamente.
Eu quero ser como as pedras
que nunca saem dali.
Mesmo que a pedra não voe,
quem saberá de seus sonhos?
O sonhos não são desejos,
os sonhos sabem ser sonhos.
Eu quero ser como as pedras
e nunca sair daqui.
Sempre estar, completamente ,
onde estiver o meu ser.

Caio Fernando Abreu
de Poesias nunca publicadas
Porto Alegre, 1996

terça-feira, 31 de outubro de 2017





“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia. Me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez.”


(Caio Fernando Abreu) 

Oriente



manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda  ( se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres

manda-me Osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(um pentagrama, asas transparentes)

manda-me tudo pelo vento;
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingindo de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontraste)

Caio Fernando Abreu
In Poesias Nunca Publicadas de Caio F.Abreu

sábado, 9 de setembro de 2017






Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV... Olha também pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança alguma... Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida que não a que vivem... Deita teu perdão sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma - sobre esses que sobreviveram a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.

Fragmentos de ZERO GRAU DE LIBRA 
 Caio Fernando Abreu
arte Tchiro Tsuruta



"Não sou pra todos.
Gosto muito do meu mundinho.
Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas.
Às vezes tem um céu azul, outras tempestade.
Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos,
mas não cabe muita gente.
Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso.
São necessárias..."

Caio Fernando Abreu
arte Claudia Tremblay

CANTIGA PARA NINAR INSONES



Quieta, carência minha:
não pinceles assim, em ouro,
o que no barro é feito. Não
desvendes metáforas complexas
onde o verbo é quase sempre raso
e pouco. Não, não te atices
assim, toda a fim, outra vez,
de elaborar torturas acetinadas
sobre mesquinharias de algodão.

Não te bastou, então, toda essa estrada?

Quieta, quieta: silencia.
Como as tevês antigas, disciplinada,
procurar ver em preto, em branco,
em calmaria. Não assim, despudorada,
policrômica, out-dooresca. Respira,
respira fundo, conta até dez.
Não telefona. Não fantasia.

Sossega. Chega de enganos.

Recolhe ardores indiscriminados ,
os arrebatamentos, controla.
Controla-te, por favor, carência minha,
pois urge sublimar a ânsia do sublime.
Tenta, tenta. Ou toma um mogadom,
um valium, trinta miligramas( e três,
se for preciso). E dorme, dorme
bruta, dorme profundamente , dorme
sem sonho algum
enquanto chove dentro e fora a chuva fria.

Amanhã tem mais.

Maio 1982
Caio Fernando de Abreu
In Poesias nunca publicadas
tela Dorina Costras

sexta-feira, 1 de setembro de 2017





"Paciência para cruzar os dias sem se
deixar esmagar por eles,mesmo que nada
aconteça de mau, fé para estar seguro,
o tempo todo, que chegará setembro."


Caio Fernando Abreu