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domingo, 18 de março de 2018

Serenata à chuva





Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto do poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário.Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia 
tela Andre Kohn

Em troca da alegria




Semeaste o dia. De manhã cedo
a terra disse o meu nome com a tua voz.
Na casa da minha avó eu acordava
com o cheiro do pão acabado de fazer.
Ela que tudo fazia e tudo nos dava
dá-me agora muito mais.O seu rosto
mora comigo e as mãos acariciam-me 
cada palavra que não sei dizer.Esta manhã 
vi o mar à janela e uma gaivota sorria-me
do outro lado da rua. E não perguntei
onde estás ou se tens passado bem.
Nada perdi em troca da alegria.
Nada desejei com o pão e o café.
Vesti-me depressa e comecei a dançar.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia
arte Daniel F.Gerhartz