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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

NESTE TEMPO

 

 Feliz ano...Hoje que tens 
minha terra a teus dois lados, és feliz, irmão.
Eu sou errante filho do que amo.
Responde-me, pensa que estou contigo
a perguntar-te, pensa que sou o vento de janeiro,
vento Puelche,* vento velho das montanhas
que quando abres a porta te visita
sem entrar, ventilando suas rápidas perguntas.
Dize-me, entraste por um campo de trigo ou de 
         cevada,
estão dourados? Fala-me de um dia de cerejas.
Longe do Chile penso num dia redondo,
cor de amora, transparente, de açúcar em cachos,
e de grãos espessos e azuis que gotejam
em minha boca as suas taças carregadas de delícia.
Diz-me, mordeste hoje a anca pura
de um pêssego, e enchendo-te de imortal
          ambrosia,
até que também foste fonte da terra,
fruto e fruto entregues ao esplendor do mundo? 

 

                                        Pablo Neruda 
                                       de Canto Geral 

                      *Vento Puelche; vento leste, que vem da cordilheira para o mar.
   


NOTURNO

 


Chega o circuito do deserto,
à alta noite aérea do pampa,
ao círculo noturno, espaço e astro,
onde a zona do Tamarugal recolhe
todo o silêncio perdido no tempo.

Mil anos de silêncio em uma taça
de azul calcário, de distância e lua,
lavram a geografia nua da noite.

Eu te amo, pura terra, como tantas
coisas amei contraditórias:
a flor, a rua, a abundância, o rito.

Eu te amo, irmã pura do oceano.
Para mim foi difícil esta escola vazia
em que não estava o homem, nem o muro, nem a planta
para apoiar-me em algo.

Estava só.
Era planura e solidão a vida.

Era este o peito varonil do mundo.

E amei o sistema de tua forma reta,

a extensa precisão de teu vazio.


Pablo Neruda
de Canto Geral
arte Bigthu Mbnail


terça-feira, 5 de outubro de 2021

PLENO OUTUBRO



Pouco a pouco e também muito a muito
me aconteceu a vida
e que insignificante é este assunto:
estas veias levaram
sangue meu que poucas vezes vi,
respirei o ar de tantas regiões
sem guardar para mim uma amostra de nenhum
e afinal de contas já o sabem todos:
ninguém leva nada de seu
e a vida foi um empréstimo de ossos.
O belo foi aprender a não se saciar
da tristeza nem da alegria,
esperar o talvez de uma última gota,
pedir mais ao mel e às trevas.


Talvez fui castigado:
talvez fui condenado a ser feliz.
Fique afirmado aqui que ninguém
passou perto de mim sem me compartir.
E que meti a colher até o cotovelo
numa adversidade que não era minha,
no padecimento dos outros.
Não se tratou de palma ou de partido
mas de pouca coisa: não poder
viver nem respirar com essa sombra,
com essa sombra de outros como torres,
como árvores amargas que o enterram,
como pancadas de pedra nos joelhos.


A tua própria ferida se cura com pranto,
a tua própria ferida se cura com canto,
mas na tua mesma porta se dessangra
a viúva, o índio, o pobre, o pescador,
e o filho do mineiro não conhece
o seu pai entre tantas queimaduras.
Muito bem, mas o meu ofício
foi a plenitude da alma:
um ai de gozo que te corta a respiração,
um suspiro de planta derrubada
ou o quantitativo da ação.


Eu gostava de crescer com a manhã,
embeber-me de sol, com pleno gozo
de sol, de sal, de luz marinha e onda,
e nesse avanço da espuma
fundou meu coração seu movimento:
crescer com o profundo paroxismo
e morrer se derramando na areia.


Pablo Neruda
de Antologia Poética
créditos para o blog do Castorp
https://blogdocastorp.blogspot.com

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Jardim de Inverno




Chega o inverno.Um esplêndido ditado
dão-me as lentas folhas
vestidas de silêncio e de amarelo.
Sou um livro de neve,
uma larga mão, uma pradaria,
um círculo que espera,
que assim pertenço à terra e a seu inverno.

Cresceu o rumor do mundo na folhagem,
ardeu depois o trigo constelado
por flores rubras como queimaduras,
logo chegou o outono estabelecendo
a escritura de vinho:
e tudo passou, foi céu passageiro
a taça do estio,
e se apagou a nuvem navegante.

Eu esperei no balcão, tão enlutado
como ontem nas heras da minha infância,
que a terra estendera
suas asas no meu amor desabitado.

Eu soube que a rosa feneceria
e este caroço do transitório pêssego
voltaria para dormir, germinar:
e me embebedei com a taça de ar
até que todo o mar se fez noturno
e o amanhecer foi convertido em cinza.

Vive a terra agora
tranquilizando o seu interrogatório,
estendida a pele do seu silêncio.
Volto a ser agora
o taciturno que chegou de longe
envolto em chuva fria e pelos sinos:
devo para a pura morte da terra
a intenção das minhas germinações.

Pablo Neruda
In Jardim de Inverno
arte E. J. Paprocki

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Juventude



Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.

Pablo Neruda


Eu não me calo


Eu não me calo.

Eu preconizo um amor inexorável.

E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.

Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.

É esse meu temor e minha agonia.

Por isso no combate ninguém espere
Que se quede sem voz minha poesia.

Pablo Neruda 
arte Christian Schloe

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Noturno




É de noite: medito triste e só
à luz de uma candeia bruxuleante
e penso na algeria e nos enganos,
na velhice cansada,
na juventude audaz e petulante.

Penso no mar, talvez porque no ouvido
ouço o tropel feroz de suas ondas:
estou bem longe desse mar temido
do pescador que luta pela vida,
da pobre mãe que tão sozinha o espera.

Não penso apenas nisso, penso em tudo:
no pequenino inseto que caminha
no lamacento açude
e no arroio também que, serpenteando,
deixa correr a águas cristalinas...

E quando a noite chega, e tão escura
como boca-de-lobo, então me perco
em pensamentos cheios de amargura,
sombreando a minha mente
na ilimitada idade das lembranças.

Extingue-se a candeia: seus fulgores
semelham os espamos de agonia
de um morimbundo.Amarelentas cores
novo dia anunciam , e com elas 
se esvaem minhas aladas utopias.

Pablo Neruda
In O Rio Invisível
arte Vera Pavlova

A Primavera




0 pássaro chegou
e com ele a luz:
de cada trilo seu
nasce a água.

E entre água e luz que o ar desata
está a Primavera inaugurada já,
sabe a semente que já cresceu,
na corola desenha-se a raiz,
abrem-se por fim as pálpebras do pólen.

Tudo isto fez um simples pássaro
no alto dum verde ramo.

Pablo Neruda
In Plenos Poderes

A Noite




Entro no ar negro.
A noite viaja, tem
paciência em sua folhagem,
move-se
com seu espaço,
redonda,
perfurada,
com que plumas se envolve?
Ou vai nua?
Caiu sobre metálicas
montanhas
cobrindo-as com sal
de estrelas duras:
um por um
quanto monte
existe
se extinguiu e desceu sob suas asas:
sob o trabalho negro de suas mãos.
Ao mesmo tempo
fomos
barro negro,
bonecos
derrubados
que dormiam
sem ser, deixando fora o traje diurno,
as lanças de ouro, o chapéu de espigas,
a vida com suas ruas e seus números
ali ficou,
montão de pobre orgulho,
colmeia sem som.
Ai noite e noite aberta
boca, barca,garrafa,
não só tempo e sombra,
não só a fadiga,
algo irrompe, se cumula
como uma taça,
leite escuro,
sal negro,
e cai
dentro
de seu poço
o destino,
queima se quanto existe, a fumaça
viaja buscando espaço até estender a noite,
mas
da cinza
amanhã
nasceremos.

Pablo Neruda
In Memorial de Ilha Negra
arte George Wesley Bellows

Poema I




Mulher, quero que sejas como és,
mal surgindo assim da escuridão,
como te vejo agora, como nunca 
mais te verei.

Como nunca mais. Por isso quero
que sejas como és neste momento,
que o tempo se detenha em teu olhar
 e neste amor
que se desprende de ti como fruta de um ramo.

Imóvel diante de mim, tu serás no meu destino.
Em troca, não sou nada.
Sou a atitude contemplativa de todas as coisas
que convergem para ti e que de  ti se afastam.

Sou o estreito cercado de musgos que rodeia 
a glória do rosal que estala,
ou a faixa do rio multiplicada em gotas
em cada pedra da montanha.

Mulher, inútil o desejo
e inúteis todas as palavras.
Mudas no minuto como a dor,
como a luz na água.

Olha-me muito,
nos olhos abertos que amanhã fecharei 
para neles guardar o teu olhar 
contra o aguaceiro do tempo
que chove sempre lágrimas!

Pablo Neruda
In O Rio Invisível 
arte Elvira Armhein 

sábado, 9 de setembro de 2017





TUDO floresceu
nos campos, macieiras,
azuis titubeantes,capoeiras amarelas,
no meio da erva verde vivem as papoulas,
o céu inextinguível, e o ar novo
de cada dia, num tácito fulgor,
presente de uma extensa primavera.
Só não há primavera em meu recinto.
Enfermidades, beijos descompostos,
como heras de igrejas que pegaram
nas janelas negras da minha vida,
só o amor não basta, nem o selvagem
e extenso perfume da primavera.

E para ti que são bem neste agora
a desenfreada luz, o desenvolver
floral de uma evidência, o canto verde
destas verdes folhas, mais a presença
do firmamento com sua copa fresca?
Primavera exterior, não me atormentes,
desatando em meus braços vinho e neve,
corola e ramo roto de pesares,
dá-me por hoje o sonho dessas folhas
noturnas, a noite onde vão se encontrar
os mortos, os metais, tantas raízes,
e tantas primaveras extinguidas
que despertam em cada primavera.

Pablo Neruda
In Jardim de Inverno
arte Ming Feng





Por ti junto aos jardins recém-enflorados me doem os perfumes de primavera.
Esqueci teu rosto, não recordo de tuas mãos, de como beijavam teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques, as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, esqueci de teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida, se me tocas me maltratarás irremediavelmente.
Tuas carícias me envolvem como as trepadeiras aos muros sombrios.
Esqueci teu amor e não obstante te adivinho atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio: por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos, as estrelas em fuga, os objetos que caem.

Pablo Neruda
tradução: Rolando Roque da Silva
In Para nascer nasci 
arte Washington Maguetas